Disque Denúncia
 

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Leia a entrevista de Zeca Borges, coordenador do Disque-Denúncia

Criado no auge da onda de seqüestros que apavorou o Rio de Janeiro, o Disque-Denúncia (2253-1177) está completando doze anos. Nesse período, mais de 1 milhão de ligações anônimas ajudaram a polícia a elucidar crimes. E deram origem a um poderoso banco de dados, como explica nesta entrevista o ex-consultor do mercado financeiro José Antônio Borges Fortes, o Zeca Borges, coordenador do programa.

Em 1995, o senhor deixou o mercado financeiro para implantar o Disque-Denúncia. Por que a mudança radical?
Na época havia um grupo de empresários e profissionais decididos a apoiar o governo no combate à violência. Essas pessoas confiavam em mim, e eu acreditava que era possível obter resultados.

Quem financia o Disque-Denúncia hoje?
Somos uma parceria entre o poder público e a iniciativa privada. Ambos aportam recursos diretamente e de forma independente. Em determinados anos o estado participa mais, em outros menos. Em 2006, a iniciativa privada arcou com 70% dos custos.

Como o senhor vê a evolução do crime no Rio?
A situação ainda é grave, mas quando começamos os índices eram piores. Houve altos e baixos. Estamos melhores do que em 1995, mas bem piores do que em 1998. O que mais preocupa é a mudança do perfil do criminoso. Ele se tornou mais violento.

E o que mudou no Disque-Denúncia?
Não nos limitamos mais a receber denúncias e transmiti-las à polícia. Criamos um sofisticado banco de dados com essas informações, para uso das autoridades. Fazemos estudos e análises setoriais. Hoje, a polícia nos procura para preparar suas ações.

Como saber se a polícia realmente investiga as denúncias?
Somos o melhor aliado que ela ganhou nos últimos anos. Mas o denunciante não está de olho só no bandido. Ele nos informa também da ação policial. E nós repassamos essas informações aos comandantes. Também temos, claro, um setor que cobra resultados.

Há muitos trotes?
Não. Nosso número não é fácil de memorizar, mas está em toda parte. Só que a ligação não é gratuita. Essa é a contrapartida do anonimato.

Quanto já se pagou de recompensa?
Oferecemos mais de 700 000 reais e só pagamos 127 000 reais. É assim no mundo todo. O que motiva as pessoas não é o dinheiro, mas a indignação. A vantagem da recompensa é que ela torna o bandido conhecido, derruba a camuflagem dele.

O que o senhor acha da atual política de segurança?
Estou otimista. Há coerência entre ação policial e discurso. E esse é o sinal que deve chegar aos policiais de ponta e até mesmo aos bandidos, que parecem estar entendendo o recado.
Quais foram as maiores realizações do Disque-Denúncia?
As realizações foram vidas salvas, crianças libertadas de maus-tratos, propriedades recuperadas. Recebemos 400 denúncias por dia. Não se pode ter um policial em cada esquina, mas em cada esquina há um cidadão.

O senhor não teme represálias?
Fazemos o que fazemos por medo, e não o contrário. Nossa luta é contra esse medo que atinge a todos nós, cidadãos. Mas tomamos os nossos cuidados.

* Entrevista publicada na revista Veja Rio de 15 de agosto de 2007