28/09/2026
Do pedágio às mortes, série 'Um tiro no pleito' vai detalhar as múltiplas estratégias adotadas pelo tráfico e pela milícia para interferir nas disputas
No início de abril, o vereador de Nova Iguaçu Vagner Mateus dos Santos, mais conhecido como Vaguinho Neguinho (PRD), andava apreensivo com a eleição. Campeão de votos no município da Baixada Fluminense em 2024, o político investia na pré-campanha à Assembleia Legislativa — e já monitorava com atenção os passos dos rivais. No dia 7, enviou a um contato no WhatsApp uma captura de tela do grupo “Alvorá Vizinhos Unidos”, composto por moradores de um loteamento na cidade, na qual uma pessoa anunciava a visita de outro pré-candidato: “Reunião dia 09/05 às 19h com nosso deputado estadual Felipinho Ravis para pedirmos melhorias para nosso bairro”.
Do outro lado, no entanto, não estava um simples correligionário. Do Complexo Penitenciário de Gericinó, José Luiz Lima, o Zé Velho, chefão do Comando Vermelho (CV) na região, acalmou Vaguinho: “Não vai entrar”. Para a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Rio (MPRJ), as mensagens mostram “uma clara cobrança em razão da entrada de outros políticos em comunidades controladas pelo capital político do alvo”.
O diálogo revelador entre parlamentar e líder de facção deu-se em meio a uma escalada de crimes eleitorais relacionados à atuação do tráfico e da milícia no Rio. Dados da PF obtidos pelo GLOBO via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que os inquéritos abertos pela corporação para apurar corrupção e coação de eleitores quintuplicaram no estado — de 60, entre 2016 e 2017, para 324 no ciclo 2024/2025. As 1.072 investigações instauradas em uma década levam o Rio ao topo do ranking nacional de casos, com quase duas centenas a mais que o segundo colocado, o Ceará.
Os números inéditos fazem parte da série “Um tiro no pleito”, que, a partir de hoje, vai detalhar as múltiplas estratégias adotadas pelo crime organizado para interferir nas disputas. Em solo fluminense, traficantes e milicianos fecham acordos de campanha exclusiva em seus redutos, como no caso de Vaguinho, patrocinam candidaturas, participam diretamente de comícios e até executam agentes políticos que contrapõem seus interesses.
A investigação da PF sobre o vereador de Nova Iguaçu apontou que, em troca do apoio eleitoral, o CV cobrava de Vaguinho Neguinho, dono de empresas de internet, a prestação de serviços de tecnologia à quadrilha. Em setembro de 2024, um interlocutor que se identificou como “fiel do amigo responsável pela boca do Paraíso” — outro reduto do político dominado pela facção — perguntou: “Tem como você ver a melhor forma de ‘ajudar nós’ em um ponto de internet lá pra firma?”.
Mas os contatos de Vaguinho não se restringiam à maior facção do Rio: as quebras de sigilo do vereador trouxeram à tona vínculos ecléticos — o que também possibilitava o livre acesso a comunidades dominadas por quadrilhas rivais no período eleitoral. A partir de movimentações financeiras, a PF descobriu que ele é sócio de membros da milícia de Gilson Ingrácio de Souza Junior, o Juninho Varão, que disputa com o CV o controle de vários bairros de Nova Iguaçu.
O inquérito também identificou uma troca de mensagens em que Vaguinho discute com um comparsa um plano para entrar em áreas sob jugo do Terceiro Comando Puro (TCP) ao longo da campanha. Para que a empreitada tivesse êxito, ele se aproximou de pelo menos um chefão da facção: Wallace de Brito Trindade, “dono” do Complexo da Serrinha, na Zona Norte da capital, para quem o vereador emprestou R$ 40 mil através de um laranja, segundo a investigação.
O conjunto de achados serviu de base para que, no último dia 14, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) barrasse a candidatura de Vaguinho a deputado. Cabe recurso — e, enquanto isso, bandeiras com sua foto e número de urna ainda tremulam aos montes por Nova Iguaçu, como O GLOBO constatou na última terça-feira. Já o inquérito da PF permanece em andamento.
Levantamento exclusivo do Disque Denúncia (2253-1177) junto a 3 mil relatos sobre corrupção e coação eleitoral indica que a influência dos grupos armados no pleito reflete a cena criminal do Rio: enquanto a milícia perde espaço, o tráfico avança. Em 2020, auge da expansão de paramilitares da Zona Oeste em direção à Baixada, eles computavam a maior fatia das denúncias — 51,4% dos relatos tratavam de milicianos, e 48,6%, de traficantes.
A partir de 2022, quando o CV colocou em prática um plano de retomada de territórios perdidos para a milícia na década anterior, as denúncias sobre o tráfico dispararam. No ciclo de 2024, chegaram a 64,3%; no atual, a 64,7%.
No recorte sobre facções, as citações ao CV também acompanham seu avanço geográfico — e crescem sem parar. Em 2022, o grupo foi lembrado em 25% dos relatos; no período seguinte, em 36,4%; e, no ciclo atual, em 45,5%.
Reduto eleitoral de Vaguinho, o Km 32, em Nova Iguaçu, segue esse desenho. Invadida pela milícia em 2019, a região foi retomada pelo CV após três anos — o que, inclusive, explica a proximidade do vereador com ambos os grupos, dizem os investigadores.
Quatro das cinco comunidades mais citadas nas denúncias têm predomínio do CV: os complexos do Chapadão — líder com 26 menções — e da Penha, na Zona Norte da capital; do Salgueiro, em São Gonçalo; e do Castellar, em Belford Roxo. A Coreia, controlada pelo TCP, fecha a lista.
Para o promotor Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ), há outro fator, além da expansão do CV, por trás da explosão nos casos de interferências de grupos armados nas eleições: a onda recente de operações que desnudaram os laços entre políticos e o crime organizado no estado.
— Esse tema saiu das sombras. A interferência sempre existiu. O que mudou é que, nos últimos anos, desde a investigação da morte da Marielle, passando pelos casos dos deputados Lucinha, TH Joias e Val Ceasa, a relação entre as quadrilhas e a política ganhou visibilidade. É um ciclo: a luz que vem sendo jogada encoraja as pessoas a denunciarem, o que motiva a abertura de mais investigações — opina Corrêa.
Já Bruno Gaspar, coordenador das Promotorias Eleitorais do MPRJ, frisa que o maior desafio é levar os responsáveis por esse quadro ao banco dos réus. Do total de inquéritos sobre corrupção e coação eleitoral na última década, só 3% produziram indiciamentos:
— Nesses casos, a prova é muito difícil. Nem os candidatos afetados costumam depor. Às vezes, o inquérito só avança se algo é obtido ao acaso, na quebra de sigilo de um celular apreendido, por exemplo.
No telão, um homem surge ao vivo durante o comício em Campos, no Norte Fluminense. Chamado de “nosso amigo Ricardinho”, José Ricardo Rangel de Oliveira está ali para chancelar o nome do então postulante a vereador Bruno Fernando Santos de Azevedo, o Bruno Pezão (PL). O convidado ilustre, embora se porte como um cabo eleitoral de peso, tem como principal item do currículo o controle das bocas de fumo do TCP na cidade. Na condição de chefe do tráfico, cumpre 30 anos de prisão no Complexo de Gericinó — de onde, a mais de 300 quilômetros de distância, marcou presença diante dos eleitores por videoconferência.
“Nosso amigo Ricardinho ‘tá’ acompanhando ao vivo, só tenho a agradecer. Perguntei ao Ricardinho: ‘Pode filmar esse povo bonito?’ (Ele respondeu) ‘Pode filmar isso tudo aí que vai rodar os quatro cantos de Campos’”, diz um assessor na gravação, antes de passar o microfone ao próprio Pezão.
O registro ocorreu a três meses da eleição de 2024 e foi obtido pela Polícia Civil na apuração de um homicídio. No dia seguinte ao ato reforçado por Ricardinho, Aparecido Oliveira de Moraes, de 69 anos, foi executado a tiros no carro, na mesma região. Uma testemunha contou que, pouco antes, Aparecido — puxador de votos concorrido entre os políticos locais, já que costumava apoiar candidatos vitoriosos — anunciou que trabalharia para um rival do candidato.
De acordo com a investigação, o político pagou R$ 40 mil pelo “apoio” do traficante. “Ricardinho ligava de dentro do presídio para as pessoas falando: ‘Vocês sabem quem é meu candidato, é para votar nele’”, narrou a delegada Natália Patrão, responsável pelo inquérito, à Justiça Eleitoral.
A semanas da eleição, Pezão foi preso em flagrante com R$ 600 mil, mas acabou libertado no dia seguinte, sendo reeleito com 4.880 votos. Em agosto passado, o Ministério Público Eleitoral pediu sua inelegibilidade. Enquanto não sai a sentença, ele segue ativo na política, pedindo votos nas ruas e até organizando atos dos correligionários Flávio Bolsonaro e Douglas Ruas em Campos.
Em 2020, a interferência do crime nas eleições motivou outro assassinato. Candidato a vereador em Nova Iguaçu, Domingos Cabral, o Domingão, foi morto a tiros um mês antes do pleito. A investigação não avançou, mas um depoimento prestado quatro anos depois atribuiu o crime à milícia de Danilo Dias Lima, o Tandera.
À Justiça, o sargento André Cabral — irmão de Domingão e acusado de chefiar uma quadrilha rival — contou que Tandera invadiu a região com comparsas meses antes da execução e impôs que seu parente não se candidatasse. “Ele não quis, e acabou morto”, disse.
Em Macaé, também no Norte Fluminense, a PF investiga se a viúva de um chefe dos Amigos dos Amigos (ADA) coordena campanhas do clã do prefeito Welberth Rezende (Cidadania) — o que garantiria ao grupo livre acesso às áreas dominadas pela facção, que perdeu espaço no estado e tem no município um de seus últimos redutos. A personagem central do inquérito é Poliana Krisma Dutra, que se relacionava com o traficante Alcione Silveira de Souza, o Baixinho, até ele ser encontrado morto dentro do Complexo de Gericinó, em julho de 2021.
Poliana é amiga de Márcio Rezende (PSD), irmão do prefeito e candidato a deputado federal. Em 2024, segundo o relatório que motivou a apuração, ela coordenou a empreitada vitoriosa da filha dele, Manu Rezende, vereadora mais votada da história da cidade. Fotos obtidas pelos investigadores mostram Poliana, Márcio e Manu em atos nas favelas dominadas pela ADA.
Para a PF, o acesso do grupo foi intermediado pela viúva de Baixinho, já que outros candidatos teriam sido barrados. “Político só entra se pagar R$ 50 mil”, contou um deles ao depor. Em dezembro passado, Poliana foi alvo de operação que mirou a interferência do tráfico no pleito de Macaé. Mesmo em meio à investigação, Márcio teve sua candidatura aprovada pelo TRE-RJ.
A capital também tem casos documentados de candidato patrocinado por facção. Em 2024, por exemplo, a advogada Flávia Fróes foi declarada inelegível por oito anos após pedir dinheiro a chefões do CV, no presídio federal de Catanduvas, para custear sua campanha a deputada federal, dois anos antes. “É o valor de um júri que eu ‘tô’ te pedindo, só pra eu poder me desafogar para a eleição”, pediu ela a Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP.
Outra investigação tem como norte uma planilha apreendida em 2022 na cabeceira do bicheiro Adilson Coutinho Filho, o Adilsinho, reunindo 61 políticos e valores que somam quase R$ 30 milhões. Segundo a PF, as cifras coincidem com o declarado pelos então candidatos à Justiça Eleitoral, naquele ano, em gastos como gráficas. Para os investigadores, Adilsinho pagou pelo material de campanha.
Procurada, a defesa de Vaguinho Neguinho preferiu não se manifestar. Já Márcio Rezende diz que as acusações “não têm sustentação nem nas provas nem nos fatos”. O GLOBO não conseguiu contato com os demais citados.
Fonte: O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/especial/como-o-crime-invadiu-a-eleicao-do-rio-recordista-de-inqueritos-estado-viu-casos-de-coacao-quintuplicarem-em-dez-anos.ghtml